#AFROEMPREENDEDORISMO FEMININO II: militância e autoestima da mulher negra
- Redação M.inha

- 27 de jan. de 2020
- 5 min de leitura
Afroempreender é mais do que só produzir e vender: é resistência e militância!

Atualmente, os Afroempreendedores são 51% do total de empreendedores no Brasil, segundo dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2016, do Sebrae.
Não é coincidência que acompanhamos de uns anos pra cá, movimentos que tratam da liberdade dos cabelos crespos - mesmo o alisamento dos cabelos e o embranquecimento existirem como discussões acadêmicas sinalizadas por intelectuais como Lélia Gonzalez desde o final da década de 70 -, a sexualização e racismo sofridos pelos corpos das mulheres negras, a não aceitação dos racismos corporativos, questões sobre apropriação cultural, etc. E muito mais recente do que todos esses movimentos, agora vemos também a luta antirracista como objeto de interesse das instituições capitalistas, justamente pela consciência racial ser reivindicada como representatividade dentro do consumo. Não podemos negar que vivemos dentro de uma estrutura capitalista. Mas também não podemos negar nossas origens. Por que não atrelar o consumo à valorização da cultura afro-brasileira?
Os afroempreendedores produzem, criam suas marcas, comunicam suas causas e vendem para consumidores negros que querem sim sentir orgulho de expressar suas origens. Nós negros queremos sim ter o direito de nos expressarmos academicamente, esteticamente, intelectualmente, artisticamente assim como os brancos que sempre tiveram essa liberdade.
Nós queremos sim o poder de construir nossa identidade através da cultura, mesmo que essa cultura seja a do consumo. Aliás, principalmente através do consumo, já que o direito de consumir legitima a condição da cidadania. Se você não possui poder monetário dentro dessa sociedade pós-moderna neoliberal, sua ascensão social está morta. E quem disse que nós não queremos ascensão social? Claro que queremos lutar pelos nossos ideais, pelas nossas causas, pelo coletivo. E consumir de um afroempreendedor ou até mesmo ser um afroempreendedor é valorizar o trabalho de quem está valorizando nossas raízes.
AUTOESTIMA
"O sexismo e o racismo, atuando juntos, perpetuam uma iconografia de representação da negra que imprime na consciência cultural coletiva a ideia que ela está nesse planeta principalmente para servir aos outros. Desde a escravidão até hoje [...]".
bell hooks em O olhar opositivo, 1992.
“Você se considera uma afroempreendedora? E o que significa ser uma afroempreendedora para você?”. Perguntei para todas.
Letiane: “Sim, agora que eu estou me considerando, porque no começo como eu te falei era mais com o meu marido né. Agora que eu estou tomando parte também, me pondo junto com ele, mais a frente junto com ele e estou começando a ter mais visão. Então acho que agora que eu estou me adentrando né… Vou dizer assim, agora que eu to conseguindo ficar mais firme porque no começo eu não tava tão inspirada assim, mas agora a gente tá tendo uma outra visão… EU né, porque ele sempre teve. Eu to tendo uma outra visão, então eu posso dizer que só estou me encaixando agora no afroempreendedorismo, ter visão, fortalecimento… Acho que eu tô aprendendo agora né, vamos dizer assim.”
Fernanda: “Sim, com certeza. Significa que reconheço o nosso potencial e representatividade... Eu me vejo no que produzo me sinto quebrando as regras que a sociedade nos impõe dizendo como devemos nos comportar ou nos vestir... não existe roupa preta para gordinhos ou peças exclusivas para cada tipo de gênero ou raça… Me sinto quebrando tabu... negra gorda e afroempreendedora fazendo acontecer.”
Nabyrie: Sim, agora sim, mas vou te contar que ainda é um processo complicado para mim. [...] meu terapeuta me diz para eu pegar e assumir essa posição que eu estou, de ser dona de um negócio… Mas a questão é que minha mãe é professora e meu pai é técnico da Brastemp, então eu nunca lidei com esse mundo dos negócios, é tudo muito novo pra mim [...] E eu estou aqui na Rapbuguer todos os dias, faço questão de vir maquiada, arrumada, mesmo tendo dias que eu preciso substituir alguém na cozinha ou no atendimento, eu faço questão de vir toda produzida! [...] Eu adoro ser elogiada, adoro que reconheçam a minha beleza!”.
Quantas mulheres negras empresárias você já viu pelas televisões ou outdoors na vida? E quantas médicas negras já te atenderam? Quantas professoras negras já te deram aula? Bem, mas e quantas empregadas domésticas você já viu pelas novelas globais e na vida real? Ah, mas é aquela moça mulata do corpo tropical que desfila pela Sapucaí, desejada por todos os homens, brancos e pretos, aquela que chamam até de Globeleza agora. Sim, ela é a cinderela brasileira: mulata do carnaval por uma noite, mas durante os outros dias do ano, quem é ela? Ela é capaz de representar o corpo sinuoso e sexy da mulher negra durante as marchinhas, mas incapaz de representar a mulher negra do dia a dia? Onde está a identidade da mulher negra contemporânea? Existe espaço para a construção dessa identidade em nossa sociedade atual?
Segundo o “Atlas da Violência 2019”, lançado no mês de junho pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), “enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras teve crescimento de 4,5% entre 2007 e 2017, a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 29,9%. Em números absolutos a diferença é ainda mais brutal, já que entre não negras o crescimento é de 1,7% e entre mulheres negras de 60,5%. [...] a proporção de mulheres negras entre as vítimas da violência letal é de 66% dentro do universo de todas as mulheres assassinadas no país em 2017.”
A psicóloga Renata Rocha (@psicologarenatasantos no Instagram) argumenta que a nossa sociedade sempre colocou a mulher preta num lugar pra servir e não em um lugar para empreender, para tomar as decisões sobre si, sobre o seu corpo, sobre sua vida e sobre o seu negócio. Ser dona do seu negócio nunca foi uma possibilidade: “Pensando que lá no princípio [da História] do Brasil, os pretos que aqui chegaram tiveram suas identidades destruídas (ou tentaram destruí-las, né), então a gente precisa partir de indagações: como que os pretos são vistos aqui? Como que essa mulher é vista? E daí, questionar essa representatividade. Bom, e pra romper com essa construção da qual a sociedade impõe para essa mulher é um processo muito duro, muito difícil… É possível sim, mas existe uma construção de autoamor, de autoconfiança muito forte porque se ela não tem esses parâmetros construídos ela não consegue nem se identificar com a representatividade social. A representatividade é importante, mas somente a partir do momento que essa mulher se vê e se entende como uma mulher preta dentro de uma sociedade extremamente racista e machista.”, finaliza Renata.
Afroempreender é práxis que possibilita a (re) construção do self da mulher negra em nossa sociedade.
Uma prática que oferece a possibilidade de remodelar nossa estima dentro dos campos estético e intelectual. Nossa saúde mental é visitada e, muitas vezes, pela primeira vez. Bem, claro que romantizar o afroempreendedorismo não é o ponto, já que com todos os retratos que abarquei durante esse Especial, concluímos que o Brasil para além de uma zona violenta e racista, é uma região extremamente contraditória em termos de valores. O afroempreendedorismo ao criar essas referências de mulheres detentoras de um capital, age como um espelho para as mulheres negras que passam a visualizar novas perspectivas e possibilidades em seu processo de construção identitária, nunca experienciado antes. Isso porque já diria Angela Davis que “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”



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