#AFROEMPREENDEDORISMO FEMININO I: Quem se atreve a negar minha identidade agora?
- Redação M.inha

- 27 de jan. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 6 de fev. de 2020

Sábado, 10h30 da manhã. Enquanto caminho pela Avenida Paulista em direção ao trabalho, penso em algo que nunca havia notado antes. Não, na verdade eu observo algo que talvez estivesse bem na minha cara há muito tempo, mas sabe aquelas coisas que são tão sutis que você nem reflete criticamente sobre? Então, é exatamente o que me ocorreu: “Olha isso Natália… Olha essa quantidade de comerciantes negras, com suas mesas montadas ao longo da avenida, com suas lojas de roupas e de comidas, doces…”, penso comigo mesma. E me pergunto de onde elas são? Quantas são? Por onde estão além de quando estão pela Paulista? Será que aqui na cidade de São Paulo existe uma grande quantidade de afroempreendedoras? Mas espera: será que elas se consideram afroempreendedoras ou será que isso é apenas um conceito midiático alienado pela minha formação jornalística? O que será que significa ser afroempreendedora para essas mulheres?
Sim, com essa infinidade de perguntas que me movo em direção ao trabalho com apenas uma ideia (INCRÍVEL!) na cabeça: “É isso, vou sugerir para a equipe da Mulherzinha uma reportagem sobre afroempreendedoras aqui, na cidade de São Paulo. Bem, e já que você é uma mulherzinha que está se deparando com esse título, é sinal de que consegui trazer algumas curiosidades em formato de Especial para compartilharmos contigo, como por exemplo: você sabia que quase metade das empreendedoras negras no Brasil (49%) começam seus negócios por necessidade? Os dados são da pesquisa do Sebrae feita para a Folha de São Paulo, neste ano.
Quando eu digo que essas mulheres negras começam seus empreendimentos por necessidade, é porque não podemos desconsiderar que o índice de desemprego atual no Brasil aponta para uma fatia de 64,2% de pretos desempregados, de acordo com o relatório “Desigualdades Sociais por cor ou raça no Brasil”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE), divulgado dia 13 deste mês. E, se levarmos em conta que a maior concentração da população desempregada é composta por jovens, negros e por mulheres negras. então começamos a notar que esse mesmo grupo compõe o grupo de trabalhadores do mercado informal.
Começamos, também, a fazer as conexões mentais sobre a dinâmica do afroempreendedorismo feminino que de fato, jonga conosco, cotidianamente, pelos arredores da nossa Paulicéia Desvairada.
ORIGENS DO AFROEMPREENDEDORISMO
O conceito ‘afroempreendedorismo’ começou a ser adotado e disseminado pelas revistas e jornais paulistas, efetivamente a partir do ano de 2007, de acordo com uma pesquisa científica intitulada “Do afro ao empreendedorismo: estudo exploratório sobre o conceito de ‘afroempreendedorismo’ na imprensa paulista”, desenvolvida por mim mesma (aquele momento que você se sente orgulhosa), em 2018, por meio de um mapeamento sistemático de publicações que falavam sobre o empreendedorismo realizado por pessoas negras. Mas só foi mesmo no ano de 2017 que os veículos começaram a pautar sobre essa temática.
O curioso é que, de acordo com Renata Rocha, psicóloga preta paulistana, “[...] as mulheres que chegaram aqui em situação de escravizadas, ao mesmo tempo também agilizaram e estruturaram, ali na região de Salvador (Bahia), com seus tabuleiros, uma forma de se desenvolverem como empreendedoras. Elas articularam dinheiro para compra da carta de liberdade, alforria e tudo o mais”. Bom, vemos que a necessidade partiu basicamente de uma problemática estrutural colonizadora de nosso país, a escravidão. Mas, se atravessarmos as décadas, caindo agora, 131 anos após a Lei Áurea entrar em vigor, conectamos com o que já citei, não por acaso, no início dessa reportagem: a mulher negra empreendendo por necessidade. Necessidade desencadeada justamente por uma desigualdade social perpetuada por um sistema que continua impondo padrões sociais eurocêntricos narcísicos, e as marcas multinacionais globalizadas estão aí para provar meu argumento, utilizando da publicidade apenas como canal para lucrar em cima de uma demanda por representatividade cada vez mais complexa de se negar. Pois é, não existe uma proposta real para essas marcas, apenas uma apropriação de discursos plurais, discursos que aumentem sua penetração e share mercadológicos. Somente.
REIVINDICANDO A IDENTIDADE:
CADÊ AS MARCAS QUE REPRESENTAM QUEM EU SOU?
Apesar de todo esse contexto, não precisamos brochar tanto porque existe uma crescente perspectiva positiva dentro do cenário afroempreendedor: o afroempreendedorismo por oportunidade.
O que acontece é que as redes sociais vêm sendo assimiladas, cada vez mais, para promover transformações na sociedade, de acordo com a pesquisa “Redes Sociais na Internet e Economia Étnica: Um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil”, de Taís Oliveira, relações públicas e Mestre em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC. Taís fez da internet seu objeto de pesquisa, a qual demonstra que “[...] a internet possibilitou, em certa medida, oportunidades para a expansão de um novo cenário nas relações de trabalho e economia, sobretudo a partir da prática empreendedora.”
"Empreender é um processo humano dominado por emoções, sonhos e desejos, realizado por quem acredita na capacidade de mudar a sociedade e que tem indignação em relação aos problemas sociais. [...] Empreender é, principalmente, um processo de construção do futuro.”
O Cetic.br, departamento que implementa as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil (cgi.br), divulgou no mês de agosto deste ano a pesquisa TIC Domicílios. Essa pesquisa apontou que 70% da população brasileira faz uso da internet. O equivalente a 126,9 milhões de pessoas. Agora imagine que cada uma dessas 126,9 milhões de pessoas são pessoas que têm necessidades básicas, necessidades sociais, necessidade de estima social e necessidade de realização pessoal? Claro que eu acabei de descrever a pirâmide das necessidades de Maslow. Claro que eu estou puxando o raciocínio para a vibe mercadológica. Mas não é nisso que se baseia nosso sistema atual… Consumo? E de que servem as nossas redes sociais senão para adquirir referências simbólicas, alimentar nosso visual de imagens e opiniões que curtimos, que concordamos?
[Graças à dinâmica de nichos, temos fenômenos como as Fake News, polarização política e algoritmos que podem te alienar em diversos outros pontos].
Precisei utilizar de todo esse devaneio pós-moderno, para te dizer que essa pesquisa da Cetic.br também revelou que pela primeira vez, metade da camada mais pobre do Brasil está oficialmente utilizando a internet: são 48% das classes D e E.
“Meu nome é Letiane Ambrósio, tenho 36 anos. [...] A ideia da Chiamaka Artesanato surgiu há dois anos. [...] A gente não tem lugar físico nem loja por enquanto, apenas as redes.”
LETIANE AMBRÓSIO - @chiamakaarteeartesanatooficial

FERNANDA OLIVEIRA - @SouNegaMorena
A oportunidade está em atrelar a necessidade de fazer dinheiro para se sustentar com a possibilidade que as redes oferecem de divulgação de conteúdo. “Minha marca, Nega Morena, surgiu da necessidade de uma segunda renda, pois meu marido estava afastado do serviço e demorou até conseguir o INSS”, me conta Fernanda Oliveira, que criou uma identidade agênero para as roupas que produz. Ela diz que a proposta da sua marca surgiu para suprir seu desejo por uma identidade que a representasse: “A ideia de ter roupas que me servissem e que fossem únicas, com estampas alegres!”.

NABYRIE FRANCELINO - @rapburguer

Quantas marcas globais de roupas produzem pensando na identidade da mulher negra e gorda? Bem, esse debate sobre interseccionalidades aparentemente é pauta apenas do universo acadêmico e agora, cada vez mais, dos afroempreendedores. E, se você quiser um exemplo literalmente concreto disso, só caminhar até o 552 da rua Augusta e entrar em uma hamburgueria especialmente dedicada ao público negro e ao Rap. Sim, a Rapbuguer é a proposta da Nabyrie Francelino, que é proprietária e sócia do negócio, fruto de uma ideia que começou com uma parceria com seu amigo Fernando, em 2017.
O QUE TODAS ESSAS MULHERES PODEROSAS TÊM EM COMUM?
2017: Fernanda, Letiane e Nabyrie lançaram suas marcas há exatos dois anos. Não por coincidência, 2017 também é o ano em que a pauta sobre afroempreendedorismo estoura na Imprensa, como ilustrei lá no começo.
Identidade: Todas elas buscam valorizar a cultura negra: Fernanda com suas estampas e tecidos coloridos africanos; Letiane com seu artesanato, onde produz bonecas de pano pretas; Nabirye valorizando e trazendo a cultura do Rap para uma localização predominantemente branca e de nível socioeconômico elevado.


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