A CRÍVEL ARTE DE MARIA AUXILIADORA
- Redação M.inha

- 12 de nov. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de jan. de 2020

Cores vibrantes. Representação da vida popular e do povo afro-brasileiro. Estes pontos descrevem as obras de Maria Auxiliadora da Silva, pintora brasileira autodidata, que expunha sua voz por meio da arte, ao retratar a vida doméstica e rural, religiões afro-brasileiras, festas (como o carnaval) e outros temas que estão presentes tradicionalmente na cultura de nosso país, em quadros coloridos de pintura a óleo com elementos de colagem. O seu talento era indizível e seu legado merecia estar no mesmo patamar.
Vinda de uma família de artistas compostos por 18 irmãos, Maria largou os estudos aos 12 anos para trabalhar como empregada doméstica, assim podendo contribuir para o aumento da renda de sua casa. Então, aos 19 anos, iniciou um trabalho como bordadeira numa fábrica na Rua José Paulino, no bairro do Brás em São Paulo. Entre o tempo que lhe era disponível, com o auxílio da experiências passada por sua matriarca, Maria passou a se dedicar àquilo que mais gostava: a pintura. Primeiro com carvão, depois lápis de cor e sucessivamente guache e tinta à óleo, principal material usado em suas obras.
Sem qualquer formação artística, mas com olhar crítico e o talento nato que só ela poderia desenvolver, a artista passou a criar seus conceituais quadros. Assim, em 1968, juntou-se ao grupo que seguia o teatrólogo e poeta negro Solano Trindade, no Embu das Artes, formando um centro de artesanato voltado para a arte e cultura afro-brasileira que deu muito certo, principalmente pelo prestígio das pessoas que visitavam o local.

Mas, ao deparar-se na procura por novos desafios, Maria muda o local de suas exposições e chama a atenção do marchand (tradução: negociante) alemão Werner Arnhold e do crítico de arte Mário Schemberg, que a apresentou para o cônsul dos Estados Unidos, Alan Fisher. Assim, iniciou a sua carreira internacional, que somente trouxe frutos após seu falecimento, em 20 de agosto de 1974, após uma árdua batalha contra o câncer.
Sua técnica
Para muitos especialistas, estudantes de artes e o público interessado, é crua e autêntica, além de uma forma admirável de dar voz e protagonismo ao seu povo. Gostava de aplicar cores mais fortes para ressaltar os corpos e as paisagens, além da predominância do branco, como representação da leveza e exaltação do vestuário das escolas de samba e de divindades do candomblé.
Os materiais utilizados iam de óleo, guache e acrílica até diferentes suportes como tela, cartão e chapas de madeira. O padrão geométrico é outro destaque, o que causa, em algumas obras, a sensação de perspectiva, dependendo do ângulo observado. A artista também gostava de reproduzir tipos de tecido e rendas, por si mesma e como forma de homenagear sua mãe, Maria de Almeida, que a ensinou a arte do bordado.

Durante o período de tratamento do câncer, Maria produziu obras verdadeiramente impactantes e tocantes, o que também nos remete a pintora mexicana Frida Kahlo. Apesar das cores vibrantes, percebe-se a dor e cansaço da artista, que durante dois anos, enfrentou sucessivos tratamentos. Três obras deste momento se destacam: Sem título (Última unção) de 1973; Velório da noiva (1974) e Autorretrato com anjos (1972).
Carreira antes e após sua morte
Como é de conhecimento unânime, existem diversas artistas que conquistaram notoriedade após a morte, como no caso de Maria Auxiliadora. Apesar de ter ficado feliz com sua realização em Embu das Artes, nossa personagem quis abrir suas asas e voar para outros caminhos. E conseguiu. Contudo, este ganho veio após sua morte, com uma série de críticas aclamadas a suas obras em várias exposições e galerias pelos EUA e Europa.
Apesar disto, nos dias atuais, seus trabalhos se encontram no ostracismo e competem com uma geração que ovaciona a cultura ocidental voltada aos países europeus, que acaba por proporcionar produtos consumidos em larga escala como blusas, tênis e bonés com a cara de Vincent van Gogh, por exemplo. É importante lembrar-se que nosso país possui um vasto catálogo de artistas incríveis que merecem nossa atenção e que não podem cair em esquecimento, principalmente quando utilizam seu talento para propagar mensagens que darão voz as minorias, mostrando que elas têm importância e valor.
Fontes que auxiliaram neste texto: MASP e Revista Raça.

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